top of page
Buscar

Exu não se importa se você merece

22 de ago.
6 min de leitura

Talvez uma das maiores perversidades do discurso da meritocracia não esteja em valorizar o esforço. Esforçar-se é necessário para quase tudo aquilo que pretendemos construir.


O problema começa quando transformamos o esforço em uma espécie de "lei universal de causa e consequência": se você se esforçar suficientemente, você conseguirá. E, portanto, se ainda não conseguiu, alguma coisa faltou em você.


Faltou trabalhar mais. Faltou acordar mais cedo. Faltou estudar enquanto os outros dormiam. Faltou empreender. Faltou disciplina. Faltou “mentalidade de sucesso”.


No fim das contas, faltou mérito.


Michael Sandel desenvolve uma crítica particularmente interessante a essa lógica em "A Tirania do Mérito". Para o filósofo, a meritocracia contemporânea não funciona apenas como uma promessa de mobilidade social; ela também acaba servindo como justificativa para a desigualdade. Se acreditamos que os vencedores chegaram onde chegaram por seus próprios méritos, somos quase obrigados a concluir que aqueles que ficaram para trás são, de alguma maneira, responsáveis pela própria condição.


E talvez seja justamente aí que exista algo profundamente cruel.


Porque é relativamente fácil dizer que “quem quer consegue” quando estamos olhando para aquele que conseguiu. Difícil é sustentar essa máxima diante de quem trabalha dez, doze horas por dia e continua fazendo conta para saber qual boleto poderá atrasar naquele mês. Diante da manicure que atende uma cliente atrás da outra e ainda não conseguiu formar uma reserva financeira. Do pequeno comerciante que abre sua porta todos os dias sem saber quanto venderá. Da mãe que trabalha enquanto administra filhos, casa e uma infinidade de responsabilidades que sequer aparecem quando contabilizamos suas horas de “trabalho”.

Essas pessoas precisam realmente ouvir que lhes faltou esforço?


Talvez seja necessário admitir uma coisa bastante óbvia: há muita gente exausta de tanto se esforçar.


E há também muita gente olhando ao redor e percebendo algo ainda mais desconfortável: pessoas trabalhadoras nem sempre prosperam.

Nós conhecemos gente que trabalhou a vida inteira e chegou à velhice com muito pouco. Conhecemos pequenos comerciantes competentes que fecharam suas portas. Conhecemos pessoas talentosas que nunca encontraram uma oportunidade capaz de transformar aquele talento em dinheiro.

Da mesma forma, conhecemos pessoas que tiveram acesso às pessoas certas, ao capital certo, à oportunidade certa — ou simplesmente estavam no lugar certo, no momento certo.


Isso não significa que esforço seja irrelevante. Significa apenas reconhecer que ele é uma das variáveis do resultado, e não a única.


O próprio Sandel chama atenção para algo que a narrativa meritocrática costuma apagar: o papel das circunstâncias e até mesmo da sorte. Ninguém escolhe a família em que nasce, os talentos que recebe, as oportunidades às quais terá acesso ou sequer se aquilo que sabe fazer será valorizado economicamente pela sociedade em que vive.


Curiosamente, quando uma sociedade insiste durante tempo suficiente que basta esforço para alcançar o sucesso, mas a experiência cotidiana demonstra o contrário, outra fantasia pode começar a parecer sedutora.

Se trabalhar muito não está mudando a minha vida, talvez um golpe de sorte mude.

E é aqui que eu acredito que precisamos falar sobre as bets.


Quando trabalhar parece não funcionar, a sorte começa a parecer um caminho



É simplista tratar o crescimento das apostas apenas como uma questão de ganância ou irresponsabilidade individual.

Existe, evidentemente, uma indústria construída para estimular recorrência. O próprio Ministério da Saúde alerta que as plataformas estão disponíveis permanentemente e utilizam mecanismos como bônus, notificações, apostas em tempo real e recompensas variáveis capazes de estimular a permanência e a repetição das apostas. O transtorno do jogo, inclusive, é reconhecido como transtorno de comportamento aditivo.


Mas existe também uma pergunta social anterior que merece ser feita: por que a promessa de ganhar dinheiro apostando se tornou tão sedutora para tanta gente?


Em 2024, uma análise técnica do Banco Central estimou que cerca de 24 milhões de brasileiros haviam realizado apostas online no período analisado. Estamos falando, portanto, de um fenômeno econômico e social de enorme dimensão.

É evidente que as motivações dessas milhões de pessoas são diferentes e seria irresponsável reduzi-las a uma explicação única. Ainda assim, parece importante observar o contexto em que a promessa das apostas prospera.


Durante anos, uma pessoa escuta que precisa trabalhar para “vencer na vida”. Ela trabalha. Escuta que precisa trabalhar mais. Trabalha mais. Precisa fazer renda extra. Faz renda extra. Precisa empreender. Empreende. Precisa ser produtiva, resiliente, incansável.

Até que, em algum momento, ela olha para a própria vida e percebe que está fazendo tudo aquilo que lhe disseram que deveria fazer — e continua sem conseguir chegar onde disseram que chegaria. A promessa meritocrática começa a falhar.


É justamente nesse cenário que aparece uma segunda promessa, aparentemente oposta à primeira: você pode mudar de vida em alguns minutos.


Não é mais o esforço. É a sorte.

Não são vinte anos construindo patrimônio. É uma aposta.

Não é aumentar renda gradualmente. É multiplicar cem reais.

Não é construir condições. É acertar o resultado.

Saímos, então, de uma fantasia para entrar em outra.

De um lado, a fantasia de que todo esforço necessariamente será recompensado.

Do outro, a fantasia de que o acaso poderá nos poupar da necessidade de construir.

E talvez Exu tenha alguma coisa a nos ensinar justamente no espaço existente entre essas duas ilusões.


Exu não é meritocrata. Mas também não é o gênio da lâmpada.

Há uma tendência de transportar para Exu a mesma lógica que utilizamos para interpretar o mundo: se eu fizer tudo corretamente, se eu entregar aquilo que deve ser entregue, se eu cultuar corretamente, então Exu deverá me recompensar.

Como se prosperidade fosse uma premiação espiritual por bom comportamento.

Não é.


Exu não se importa se você “merece” ficar rico.

Da mesma maneira, Exu não existe para substituir a ausência de caminhos concretos por uma solução mágica. Essa distinção é fundamental.

Porque criticar a meritocracia não significa dizer que esforço não importa. Assim como reconhecer a importância da sorte e das circunstâncias não significa entregar a própria vida ao acaso.


O trabalhador que acredita que basta trabalhar até a exaustão e o apostador que acredita que uma odd poderá resolver definitivamente sua vida parecem ocupar posições completamente diferentes. Na realidade, talvez estejam nos dois extremos do mesmo problema.

Um entregou tudo ao esforço. O outro entregou tudo à sorte.

Nenhum dos dois está governando verdadeiramente o próprio caminho.

E é exatamente aqui que encontramos uma máxima fundamental para compreender a prosperidade dentro da Kimbanda: equilíbrio.


Prosperidade exige equilíbrio


Equilíbrio não significa passividade. Muito menos conformismo.

Equilíbrio é compreender que uma vida próspera exige trabalho, mas também exige inteligência para decidir onde colocar esse trabalho. Exige esforço, mas exige direção. Exige capacidade de aproveitar oportunidades, mas exige estrutura para sustentá-las quando aparecem. Exige reconhecer circunstâncias que não controlamos sem transformar isso em desculpa para abandonar aquilo que ainda podemos movimentar.


Há coisas que dependem de nós.

Há coisas que dependem dos outros.

Há coisas que dependem das estruturas sociais em que estamos inseridos.

E há, sim, acontecimentos que pertencem ao campo do imprevisível.

Talvez maturidade seja justamente parar de atribuir a apenas uma dessas dimensões o poder absoluto sobre nossa vida.


É por isso que, quando falamos que Exu abre caminhos, não deveríamos imaginar uma entidade distribuindo dinheiro ou realizando desejos. Abrir caminho também é produzir condição para caminhar. É perceber uma oportunidade que antes não estava sendo enxergada. É abandonar uma estratégia que apenas consome energia. É adquirir conhecimento. É estabelecer uma relação. É aprender a negociar. É cobrar adequadamente pelo próprio trabalho. É perceber que determinado caminho se encerrou e que insistir nele não é perseverança — é desperdício de força.


Há uma diferença enorme entre produzir movimento e produzir exaustão.


Exu não promete que quem trabalhar mais ficará rico.

Também não promete que um golpe de sorte resolverá aquilo que nunca foi estruturado.

Exu trabalha no território muito menos confortável da realidade.

E realidade exige leitura, estratégia, oportunidade, esforço, capacidade de mudança, percepção das circunstâncias e, algumas vezes, a humildade de reconhecer que determinado caminho simplesmente não está produzindo o resultado esperado.


Prosperidade, portanto, não é trabalhar até não suportar mais.

Também não é esperar que alguma força — uma aposta, uma entidade, uma promessa ou o próprio acaso — faça aquilo que precisamos construir.

Talvez prosperar seja aprender justamente a caminhar entre esses dois extremos.

Trabalhar sem transformar trabalho em martírio. Desejar sem transformar desejo em desespero

Arriscar sem entregar ao risco aquilo que sustenta nossa vida. Reconhecer a sorte quando ela aparece, sem depender dela para sobreviver.

E compreender que esforço só se transforma em caminho quando existe direção.


Exu não se importa se você merece. Exu não trabalha com merecimento.

Trabalha com movimento, consequência, possibilidade, limite e caminho.

E entre a exaustão de quem acredita que precisa fazer tudo sozinho e a fantasia de quem espera que alguma coisa mude sua vida de uma hora para outra, existe um território menos sedutor, porém muito mais sólido.

Na Kimbanda, damos a ele um nome bastante simples: Equilíbrio.


Se você está passando por uma situação em que isso faz sentido, meu atendimento está disponível clicanco nestes link.

 
 
 

Comentários


bottom of page